Se você apresentou uma arritmia cardíaca recentemente e iniciou o uso de medicamentos anticoagulantes (remédios que “afinam o sangue”), é muito importante que a realização de uma cirurgia seja cuidadosamente planejada.
Nas cirurgias robóticas urológicas, como a prostatectomia radical ou a nefrectomia, o paciente permanece durante várias horas em uma posição chamada Trendelenburg, na qual a cabeça fica abaixo do nível dos pés. Essa posição é necessária para proporcionar melhor visualização e maior precisão ao cirurgião, porém provoca alterações na circulação sanguínea e no funcionamento do coração e dos pulmões.

Além disso, esse tipo de cirurgia costuma ser prolongado e aumenta naturalmente o risco de formação de coágulos nas pernas ou nos pulmões (trombose venosa profunda e embolia pulmonar). Por esse motivo, durante o procedimento são adotadas diversas medidas de prevenção, como dispositivos de compressão das pernas, mobilização precoce e, quando indicado, medicamentos anticoagulantes após a cirurgia.
Quando o paciente teve uma arritmia recente, o risco cirúrgico pode ser maior, principalmente se ainda houver instabilidade do ritmo cardíaco ou necessidade de anticoagulação contínua. Nesses casos, interromper temporariamente o anticoagulante para a cirurgia pode aumentar o risco de eventos tromboembólicos, enquanto mantê-lo pode elevar o risco de sangramento durante o procedimento. Por isso, é fundamental encontrar o momento mais seguro para operar.
De maneira geral, não existe um prazo único que sirva para todos os pacientes. A cirurgia deve ser realizada somente após avaliação do cardiologista, confirmação de que a arritmia está controlada, investigação da sua causa e definição de um plano seguro para suspensão e reinício do anticoagulante.
Na prática, para pacientes que apresentaram uma arritmia de início recente, recomenda-se aguardar pelo menos 6 a 8 semanas após o evento agudo, desde que o quadro esteja estabilizado e haja liberação formal do cardiologista. Em situações mais complexas, como após cardioversão, ablação recente, insuficiência cardíaca descompensada ou necessidade de anticoagulação obrigatória, esse período pode ser maior, variando conforme cada caso.
Antes da cirurgia, o cardiologista e o urologista trabalham em conjunto para avaliar:
- Se o coração está compensado e a arritmia está controlada.
- Se o paciente pode interromper o anticoagulante temporariamente com segurança.
- Se será necessário algum tratamento específico durante o período em que o anticoagulante estiver suspenso.
- Se os benefícios da cirurgia superam os riscos naquele momento.
O objetivo é realizar o procedimento no momento mais seguro possível, reduzindo ao máximo os riscos de sangramento, trombose, complicações cardíacas e pulmonares, sempre baseado nas recomendações das diretrizes médicas mais atuais e na avaliação individual de cada paciente.

Cada paciente é avaliado de forma individual. Antes da cirurgia robótica, analisamos cuidadosamente seu histórico cardiovascular, os exames realizados, os medicamentos em uso e as recomendações do cardiologista.
Quando necessário, o procedimento pode ser adiado até que existam condições clínicas ideais para sua realização. Essa decisão tem um único objetivo: reduzir ao máximo os riscos e proporcionar uma cirurgia mais segura.
Se você teve uma arritmia recentemente ou utiliza anticoagulantes, converse com nossa equipe. Teremos prazer em esclarecer suas dúvidas e elaborar, juntamente com seu cardiologista, o melhor planejamento para o seu tratamento.
Eu Uso anticoagulante. O que fazer após a alta hospitalar?
Se você faz uso de anticoagulantes e foi submetido a uma cirurgia robótica urológica, os cuidados após a alta são fundamentais para reduzir o risco de sangramento e de formação de coágulos.
Quando devo reiniciar o anticoagulante?
O reinício do anticoagulante deve seguir rigorosamente a orientação do seu urologista e do seu cardiologista.
O momento ideal varia conforme o tipo de cirurgia realizada, o medicamento utilizado e o seu risco de trombose.
Nunca reinicie, suspenda ou altere a dose por conta própria.
Quais cuidados devo ter em casa?
- Tome o anticoagulante exatamente nos horários prescritos.
- Não pule doses e não dobre a dose caso esqueça um comprimido sem antes receber orientação médica.
- Mantenha boa hidratação, salvo se houver restrição médica.
- Caminhe várias vezes ao dia, aumentando a atividade física de forma gradual conforme orientação da equipe.
- Evite permanecer muitas horas deitado ou sentado sem movimentar as pernas.
- Utilize as meias de compressão, caso tenham sido recomendadas.
- Compareça às consultas de revisão e siga todas as orientações da equipe médica.
Quais sinais de alerta exigem atendimento imediato?
Procure um serviço de urgência ou entre em contato com sua equipe médica se apresentar:
- sangramento intenso pela urina ou pela ferida operatória;
- urina com muitos coágulos ou dificuldade para urinar;
- fezes escuras ou com sangue;
- vômitos com sangue;
- falta de ar súbita;
- dor intensa no peito;
- inchaço, dor ou vermelhidão em uma das pernas;
- tontura importante, desmaio ou fraqueza intensa;
- febre persistente ou dor intensa que não melhora com a medicação prescrita.

Posso tomar outros medicamentos?
Alguns medicamentos podem aumentar o risco de sangramento quando associados aos anticoagulantes.
Evite utilizar anti-inflamatórios, ácido acetilsalicílico (AAS) ou qualquer outro medicamento sem orientação do seu médico. Informe sempre aos profissionais de saúde que você faz uso de anticoagulantes.
Quando poderei voltar às minhas atividades?
A recuperação varia de acordo com o tipo de cirurgia e com as condições de cada paciente. Em geral, recomenda-se caminhar diariamente e retomar as atividades de forma progressiva.
Esforços físicos intensos, levantamento de peso e atividades de impacto somente devem ser retomados após liberação do urologista.
O período após a cirurgia é tão importante quanto o procedimento em si. O uso correto do anticoagulante, associado ao acompanhamento médico e à observação dos sinais de alerta, reduz significativamente o risco de complicações.
Em caso de dúvidas, não interrompa o tratamento por conta própria. Entre em contato com nossa equipe para receber orientação individualizada.
Por que as cirurgias oncológicas apresentam maior risco de trombose e embolia pulmonar?
A trombose venosa profunda (TVP) e a embolia pulmonar (EP), também conhecida como tromboembolismo pulmonar (TEP), são algumas das complicações mais importantes após cirurgias de grande porte. Embora sejam relativamente incomuns, podem representar um risco significativo quando não prevenidas adequadamente.
Pacientes submetidos a cirurgias para tratamento do câncer apresentam um risco maior de desenvolver essas complicações. Isso ocorre porque o próprio câncer aumenta a tendência do organismo à formação de coágulos, condição conhecida como estado de hipercoagulabilidade. Além disso, o trauma cirúrgico, a anestesia, o período de imobilidade e a resposta inflamatória do organismo contribuem para esse aumento do risco.
Nas cirurgias urológicas oncológicas, como a prostatectomia radical, cistectomia radical, nefrectomia e nefroureterectomia, diversos fatores podem atuar simultaneamente:
- presença de um tumor maligno;
- cirurgia de maior complexidade e duração;
- anestesia geral;
- redução temporária da movimentação após o procedimento;
- alterações na circulação sanguínea durante a cirurgia.
Nas cirurgias robóticas, outro fator merece atenção. Para permitir maior precisão do procedimento, o paciente permanece por longo período em uma posição chamada Trendelenburg (com a cabeça mais baixa que os pés) ou em posições laterais específicas, associadas ao pneumoperitônio, que consiste na insuflação de gás dentro do abdome. Essas condições podem reduzir temporariamente o retorno do sangue das pernas, favorecendo a estase venosa, um dos mecanismos envolvidos na formação de trombos.
É importante destacar que a cirurgia robótica não aumenta, por si só, o risco de trombose quando comparada à cirurgia aberta. Pelo contrário, em muitos pacientes ela proporciona menor trauma cirúrgico, menor perda sanguínea, menos dor e recuperação mais rápida, permitindo que o paciente caminhe precocemente. A mobilização precoce é uma das medidas mais eficazes para reduzir o risco de tromboembolismo venoso.
Para diminuir esse risco, seguimos protocolos internacionais recomendados pelas principais sociedades médicas. Entre as medidas preventivas estão:
- avaliação individual do risco antes da cirurgia;
- uso de dispositivos de compressão pneumática nas pernas durante o procedimento;
- mobilização precoce após a cirurgia;
- incentivo à caminhada ainda durante a internação;
- hidratação adequada;
- utilização de medicamentos anticoagulantes quando indicados, durante a internação e, em alguns pacientes oncológicos, também após a alta hospitalar.
Cada paciente é avaliado individualmente, pois o risco de trombose varia conforme fatores como idade, obesidade, histórico prévio de trombose, tipo de câncer, tempo cirúrgico, doenças associadas e uso de medicamentos.
Atualmente, graças aos protocolos modernos de prevenção, à cirurgia minimamente invasiva e ao acompanhamento multidisciplinar, a grande maioria dos pacientes realiza seu tratamento com segurança e apresenta excelente evolução pós-operatória.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada.
Referências Bibliográficas
- European Society of Cardiology. 2024 ESC Guidelines for the Management of Atrial Fibrillation, developed in collaboration with the European Association for Cardio-Thoracic Surgery (EACTS). European Heart Journal. 2024;45(36):3314-3414.
- American Heart Association, American College of Cardiology, et al. 2024 AHA/ACC Guideline for Perioperative Cardiovascular Management for Noncardiac Surgery. Circulation. 2024. Documento de referência para avaliação e manejo cardiovascular perioperatório em cirurgias não cardíacas.
- European Society of Cardiology. 2022 ESC Guidelines on Cardiovascular Assessment and Management of Patients Undergoing Non-Cardiac Surgery. European Heart Journal. 2022. Diretriz europeia para estratificação de risco cardiovascular e tomada de decisão em cirurgias eletivas.
- American College of Chest Physicians. Perioperative Management of Antithrombotic Therapy. Chest. 2022. Diretriz sobre interrupção, reinício e ponte (bridging) de anticoagulantes no período perioperatório.
- European Association of Urology. EAU Guidelines on Prostate Cancer e EAU Guidelines on Thromboprophylaxis in Urological Surgery. Atualizações anuais. Recomendações específicas para profilaxia tromboembólica em cirurgias urológicas de grande porte, incluindo procedimentos robóticos.
- Society of American Gastrointestinal and Endoscopic Surgeons. Diretrizes e revisões sobre alterações fisiológicas relacionadas ao pneumoperitônio e à posição de Trendelenburg durante cirurgias laparoscópicas e robóticas, destacando seus efeitos cardiovasculares, respiratórios e hemodinâmicos.