Hidrocele no adulto: diagnóstico, tratamento e recuperação após a cirurgia
A hidrocele é caracterizada pelo acúmulo de líquido ao redor do testículo, provocando aumento do volume da bolsa escrotal. É uma condição frequente e, na maioria das vezes, benigna. Pode permanecer pequena durante muitos anos ou aumentar progressivamente, causando sensação de peso, desconforto e dificuldade para algumas atividades do dia a dia.
Embora seja comum o paciente procurar o urologista dizendo que percebeu “um testículo maior”, na hidrocele o aumento do volume geralmente não ocorre no testículo propriamente dito. O que acontece é o acúmulo de líquido entre as membranas que o envolvem, especialmente a túnica vaginal.
Na maioria dos adultos, a hidrocele não representa uma situação de urgência. Entretanto, um aumento recente do volume escrotal deve ser avaliado, principalmente para confirmar que realmente se trata de uma hidrocele e excluir outras doenças da bolsa escrotal.
O que provoca a hidrocele?
Existe normalmente uma pequena quantidade de líquido ao redor do testículo. Esse líquido é continuamente produzido e absorvido. Quando ocorre um desequilíbrio nesse processo, ele pode se acumular e formar a hidrocele.
Em muitos homens adultos não encontramos uma causa específica, situação denominada hidrocele idiopática. Em outros casos, ela pode surgir após inflamações, infecções, traumatismos ou procedimentos cirúrgicos na região inguinal ou escrotal.
Por esse motivo, uma hidrocele que surgiu recentemente merece uma avaliação diferente daquela que já existe há muitos anos e permanece estável.
Hidrocele e câncer de testículo: por que é importante diferenciá-los?
Esse é um dos aspectos mais importantes da avaliação.
A hidrocele não é um câncer e não costuma se transformar em câncer. Entretanto, o acúmulo de líquido pode dificultar a palpação do testículo e, em algumas situações, esconder uma alteração existente em seu interior.
Além disso, determinadas doenças testiculares podem estar acompanhadas de uma hidrocele secundária.
Por isso, especialmente quando a hidrocele aparece recentemente em um adulto, quando o testículo não pode ser adequadamente palpado ou quando existe alguma alteração suspeita ao exame físico, é importante avaliar a estrutura testicular.
O câncer de testículo muitas vezes se apresenta como um nódulo ou aumento indolor do testículo. Portanto, a ausência de dor não deve ser utilizada para excluir uma doença testicular.
A mensagem é simples: antes de tratar o líquido ao redor do testículo, precisamos ter segurança de que o próprio testículo está normal.
Qual é a importância da ultrassonografia?
A ultrassonografia da bolsa escrotal, frequentemente associada ao Doppler, é o principal exame de imagem quando existe dúvida diagnóstica.
O exame permite demonstrar o líquido ao redor do testículo e, principalmente, visualizar o parênquima testicular.
Também ajuda a diferenciar a hidrocele de outras condições que podem provocar aumento ou desconforto escrotal, como espermatocele, cistos do epidídimo, varicocele, processos inflamatórios, hérnia inguinoescrotal e massas testiculares.
Se uma lesão sólida intratesticular suspeita for encontrada, a investigação deixa de ser a de uma simples hidrocele. Nessa situação, podem ser necessários marcadores tumorais — AFP, beta-hCG e LDH — e exames adicionais para investigação e estadiamento.
É importante lembrar que marcadores tumorais normais, isoladamente, não excluem um tumor testicular.
Hidrocele pode prejudicar a fertilidade?
Uma hidrocele simples geralmente não provoca infertilidade.
Quando existe uma hidrocele muito volumosa ou alguma doença testicular associada, entretanto, a situação deve ser avaliada individualmente.
Também é importante não confundir hidrocele com varicocele. A varicocele é uma dilatação das veias do cordão espermático e possui uma relação muito mais estabelecida com alterações da função testicular e da fertilidade masculina.
Caso exista dificuldade para engravidar ou preocupação específica com fertilidade, outros exames podem ser necessários independentemente da presença da hidrocele.
Existe alimentação ou medicamento para diminuir a hidrocele?
Não existe dieta capaz de eliminar uma hidrocele.
Reduzir sal, aumentar o consumo de água, utilizar determinados alimentos, chás ou suplementos não faz o líquido desaparecer.
Também não existe medicamento de uso rotineiro capaz de corrigir definitivamente uma hidrocele crônica no adulto.
Naturalmente, alimentação equilibrada, controle do peso e atividade física são importantes para a saúde geral, mas não substituem o tratamento quando uma hidrocele realmente necessita de intervenção.
É possível fazer academia com hidrocele?
Em geral, sim.
Uma hidrocele pequena e que não causa sintomas não costuma impedir musculação, caminhada, corrida ou outras atividades físicas.
Nas hidroceles maiores, o próprio peso e a movimentação da bolsa escrotal podem gerar desconforto durante o exercício. O uso de roupa íntima que proporcione boa sustentação pode ajudar.
As recomendações são diferentes depois da cirurgia, quando exercícios e levantamento de peso precisam ser temporariamente suspensos.
Toda hidrocele precisa ser operada?
Não.
Uma hidrocele pequena, com diagnóstico estabelecido e sem sintomas importantes pode ser simplesmente observada.
A cirurgia passa a ser considerada principalmente quando existe aumento significativo do volume, sensação de peso, dor ou desconforto, dificuldade para caminhar ou praticar exercícios, incômodo durante a atividade sexual, repercussão estética importante ou dificuldade para examinar adequadamente o testículo.
A decisão deve levar em consideração o quanto a hidrocele interfere na qualidade de vida do paciente.
Como é feita a cirurgia?
A cirurgia é chamada de hidrocelectomia.
Geralmente é realizada através de uma incisão na bolsa escrotal. O cirurgião acessa a hidrocele, drena o líquido e trata a membrana responsável pelo espaço onde ele se acumulou.
Existem diferentes técnicas cirúrgicas. Dependendo do tamanho da hidrocele, da espessura das membranas e das características encontradas durante a cirurgia, pode ser realizada ressecção parcial, eversão ou plicatura da túnica vaginal.
Portanto, a cirurgia não consiste simplesmente em retirar o líquido. O objetivo é modificar o espaço que permitiu seu acúmulo, reduzindo a possibilidade de recorrência.
Por que não fazer apenas uma punção?
Retirar o líquido com uma agulha pode diminuir rapidamente o tamanho do escroto, mas a estrutura que produziu a hidrocele continua presente.
Consequentemente, o líquido pode voltar a se acumular.
Aspiração, eventualmente associada à escleroterapia, pode ser considerada em situações selecionadas, principalmente quando existem motivos clínicos para evitar uma cirurgia. Não deve ser encarada automaticamente como equivalente à hidrocelectomia.
Como é o pós-operatório da hidrocelectomia?
É importante que o paciente saiba que o escroto não fica imediatamente com aspecto normal após a cirurgia.
Nos primeiros dias é comum existir inchaço, sensibilidade e equimose, deixando a pele arroxeada. Dependendo do tamanho da hidrocele e da extensão da cirurgia, o edema pode ser considerável.
Isso não significa necessariamente que a hidrocele voltou.
O organismo precisa de algum tempo para absorver o edema e reorganizar os tecidos manipulados durante a operação. A melhora costuma ser progressiva ao longo das semanas.
Em algumas situações, o cirurgião pode utilizar um dreno temporariamente, principalmente quando considera existir maior risco de acúmulo de sangue ou secreção. Essa decisão depende das características de cada cirurgia.
Como cuidar do curativo?
Os cuidados exatos dependem do tipo de fechamento da pele e da orientação fornecida pelo cirurgião.
De maneira geral, o objetivo é manter a região limpa e seca, evitando manipulação excessiva da ferida.
Após a liberação para banho, a região pode normalmente ser higienizada delicadamente com água e sabonete, sem esfregar a incisão. Depois, deve ser cuidadosamente seca.
Não é recomendado aplicar por conta própria álcool, água oxigenada, pomadas, antissépticos ou outros produtos diretamente sobre a ferida sem orientação médica.
Se houver um curativo cobrindo a incisão, ele deve ser trocado conforme orientação da equipe. Curativos molhados ou muito sujos precisam ser substituídos.
Dependendo da técnica utilizada, podem existir pontos absorvíveis, que desaparecem gradualmente, ou pontos que precisarão ser retirados posteriormente.
A sustentação do escroto ajuda?
Sim. Uma cueca com boa sustentação ou suporte escrotal pode ser bastante útil nos primeiros dias.
Ela diminui a movimentação do escroto e pode proporcionar maior conforto, principalmente ao caminhar.
Isso é diferente de utilizar roupas excessivamente apertadas. O objetivo é oferecer sustentação confortável, e não compressão exagerada da região operada.
Posso colocar gelo?
Compressas frias podem ser utilizadas em alguns protocolos pós-operatórios para auxiliar no controle do edema e do desconforto.
Quando recomendadas pelo cirurgião, devem ser feitas por períodos curtos e nunca com gelo diretamente em contato com a pele, para evitar lesões pelo frio.
A frequência e o período de utilização devem seguir a orientação da equipe responsável pela cirurgia.
Quando posso voltar a trabalhar?
Depende principalmente da atividade profissional e da evolução pós-operatória.
Pacientes que trabalham sentados geralmente conseguem retornar mais cedo do que aqueles que realizam esforço físico intenso, permanecem muitas horas em pé ou precisam carregar peso.
O retorno deve ser progressivo e individualizado.
Quando posso voltar à academia e à atividade sexual?
Nas primeiras semanas deve-se evitar esforço físico importante, levantamento de peso e atividades que provoquem impacto ou grande movimentação da bolsa escrotal.
Musculação intensa, corrida, bicicleta e esportes geralmente precisam ser interrompidos temporariamente.
A atividade sexual também costuma ser suspensa durante o período inicial de cicatrização.
Não existe um número de dias que sirva para todos os pacientes. O momento adequado depende do procedimento realizado, da cicatrização e da evolução do edema e deve ser confirmado na revisão pós-operatória.
Quais sinais precisam de avaliação médica depois da cirurgia?
Algum edema e equimose são esperados. Entretanto, o paciente deve entrar em contato com a equipe médica diante de situações como febre, dor progressivamente mais intensa, sangramento persistente, secreção purulenta, vermelhidão crescente ao redor da incisão, abertura da ferida ou aumento muito rápido do volume escrotal.
Um aumento súbito e importante do escroto no pós-operatório pode, por exemplo, estar relacionado à formação de um hematoma e merece avaliação.
A hidrocele pode voltar depois de operada?
A recorrência é possível, embora a cirurgia tenha como objetivo proporcionar tratamento definitivo.
Hidroceles muito volumosas, recidivadas ou associadas a alterações anatômicas específicas podem apresentar maior complexidade.
Por isso, diante de novo aumento do volume após uma hidrocelectomia, é importante diferenciar edema pós-operatório prolongado de uma verdadeira recorrência.
O que o paciente deve guardar como principal informação?
A hidrocele é uma doença predominantemente benigna e com tratamento bem estabelecido.
Nem todo paciente precisa ser operado. Antes de decidir pelo tratamento, entretanto, é fundamental confirmar que o aumento escrotal realmente corresponde a uma hidrocele e que o testículo foi adequadamente avaliado.
Quando a hidrocele causa sintomas ou interfere significativamente na qualidade de vida, a hidrocelectomia pode proporcionar uma solução definitiva, lembrando que a recuperação é gradual e que inchaço e alterações da aparência do escroto durante as primeiras semanas fazem parte do processo de cicatrização em muitos pacientes.
Referências bibliográficas
- European Association of Urology (EAU). EAU Guidelines on Testicular Cancer. EAU Guidelines Office, Arnhem, The Netherlands. A diretriz reforça a importância da ultrassonografia na avaliação de alterações testiculares e o papel dos marcadores tumorais quando existe suspeita de neoplasia.
- Shakiba B, Heidari K, Afshar K, et al. Aspiration and sclerotherapy versus hydrocoelectomy for treating hydrocoeles. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(11):CD009735.
- Partin AW, Dmochowski RR, Kavoussi LR, Peters CA, eds. Campbell-Walsh-Wein Urology. 13th ed. Elsevier; 2025. Conteúdo referente à avaliação e tratamento das doenças benignas escrotais.
Este conteúdo possui caráter exclusivamente informativo e educativo e não substitui a consulta médica.